Junius Paul | Ism

Posted by

Comecemos precisamente pelo início. Ism, o recentemente editado álbum duplo do baixista e contrabaixista norte-americano Junius Paul, arranca de forma invulgar, sem excerto introdutório ou instrumentos progressivamente adicionados, como nos habituam a maioria das obras. Trata-se de um tiro de partida já na crista da onda, sem que possamos testemunhar preparação prévia ou mesmo a subida para a prancha que a irá surfar. É quase como se apanhássemos a manobra a meio e nos fosse proposta uma reconstrução mental dos primeiros segundos, que já há muito ficaram para trás. Este arranque espelha em grande parte o ADN do disco: sem regras, livro de estilo ou manual de conduta que o tutele, apenas a vontade de Junius Paul navegar pelo seu vasto imaginário.

“You Are Free to Choose”, a canção em questão, que conta com as participações de Vicent Davis (bateria), Justin Dillard (piano) e Corey Wilkes (metais), músicos que integram o quadro multigeracional de Chicago e que desempenharam um papel importante quando Junius escolheu seguir o seu próprio caminho criativo no histórico Velvet Lounge, na zona sul da cidade, em 2002, é uma espécie de carta de interesses selada com uma frenética epopeia onde as peças se encaixam entre si no limite da desarrumação, dançando por vezes com o passo certo e a cadência alinhada, outras vezes desligadas e solitárias como alguém que ensaia uma sequência no canto da sala, à margem dos restantes colegas.

Nascido e criado na área metropolitana de Chicago, Junius Paul é um músico internacionalmente reconhecido que já gravou e tocou com colectivos como The Art Ensemble of Chicago, Famoudou Don Moye Sun Percussion Summit, AACM Small Ensemble & Big Band, e artistas como Kahil El’Zabar, Georgia Anne Muldrow, Marquis Hill, KRS-One e Mackaya McCraven, tendo com este último colaborado no álbum Universal Beings, de 2018, editado, à imagem de Ism, pela International Anthem, selo de Chicago responsável por um fértil leque de lançamentos nos meandros do jazz. Makaya McCraven, que em 2018 também mostrou ao público o trabalho Where We Come From (Chicago x London Mixtape), estabelecendo uma importante ponte entre as novas expressões de jazz londrinas e norte-americanas, reclama créditos de produção em Ism, o que explica um pouco do cariz alargado e heterogéneo da obra.

As taças tibetanas de “Bowl Hit” marcam o regresso à calma, socorrendo-se de rufos de bateria e ligeiros apontamentos de metais, transitando suavemente para “View From the Moon”, cama perfeita para “Baker’s Dozen”, a primeira incursão do álbum pelos meandros do hip hop. Na sua textura boom bap, “Baker’s Dozen” traz à memória alguns trabalhos dos Public Enemy, Beastie Boys, Disposable Heroes of Hiphoprisy ou até De La Soul, sendo neste caso o clássico 3 Feet High and Rising a ligação mais imediata. Gravado na segunda de duas sessões na Comfort Station, uma galeria de arte localizada no Logan Square Park, em Chicago, “Baker’s Dozen” é coadjuvada por Isaiah Spencer (bateria), Rajiv Halim (saxofone) e Jim Baker (sintetizador ARP). Sentem-se bem os graves de Paul, o vaivém de metais de Halim e o guinchar das teclas de Baker.

Dizer que Ism capta o som de Chicago não é lugar-comum, nem é sequer uma forma de abreviar o trabalho de Junius Paul em uma só frase. É, digamos assim, uma característica para ser levada à letra, já que o disco foi gravado em vários estúdios e salas de concerto da cidade norte-americana, com um generoso leque de músicos locais. Dos Decade Studios à já mencionada Comfort Sation, passando pelo Polish Triangle, The Hideout e a Co-Prosperity Sphere, são vários os pontos que Junius Paul escolheu para captar esse pulsar, entre 2016 e 2019, período em que Ism foi construído. É como se Paul tivesse saído à rua com vários frascos de vidro para armazenar a atmosfera de cada espaço para depois compilar tudo numa grande colecção intitulada O Ar de Chicago. Nestas 17 canções repousam diferentes texturas, reverberadas nas paredes de cada edifício onde se enclausurou ou onde se expressou ao vivo, diferentes intenções e personalidades, injectadas pela família musical com a qual se predispôs a gravar, e diferentes épocas do seu desenvolvimento enquanto músico, que coincidem também com diferentes pontos cronológicos da cena jazz da cidade mais populosa do estado de Illinois. Por isso, sim, este é mesmo o som de Chicago.

Existe um lado psicadélico em Ism, corroborado por canções como “Asé”, uma das primeiras a ser revelada ao público, cujo início mostra Paul num conciso solo, caminhando em direcção à bateria e ao trompete que o esperam lá mais à frente, envolvendo-se depois numa acelerada corrida caleidoscópica intitulada “The One Who Endures”, onde participa também um piano. Trava-se ligeiramente em “Spocky Chainsey Has Re-Emerged”, a mais longa viagem do disco, com aproximadamente 20 minutos, gravada ao vivo numa noite de Verão no Polish Triangle (uma movimentada intersecção entre a Division Street, a Ashland Avenue e a Milwaukee Avenue), sendo uma das canções onde, segundo Paul, se sente melhor a familiaridade entre os músicos, por tocarem juntos há muitos anos (novamente a quadrilha Junius Paul, Vincent Davis, Justin Dillard e Corey Wilkes).

“Twelve Eighteen West” é uma colectânea de efeitos sonoros. Ouvem-se shakers, sinos, triângulos, caixas-de-ressonância, acordes perdidos de piano, cowbells, pratos de bateria e mais uma panóplia de sons não identificados, numa abordagem muito próxima de foley, técnica através da qual se tentam reproduzir sons com uma perspectiva cinematográfica. “Georgia” marca o regresso à toada hip hop, assim como “Paris”, que, dada a cidade em questão, facilmente nos transporta para os tempos áureos de uns NTM (não será exercício complicado imaginar Kool Shen ou JoeyStarr a rimarem sobre este instrumental mais jazzístico, como por diversas vezes aconteceu na caminhada do colectivo). Mas “Paris”, nascida em Chicago e desenvolvida por Makaya McCraven na Cidade Luz, goza de um carácter metamórfico e, na segunda parte da canção, acelera o ritmo numa inquieta recta dominada por bateria e contrabaixo, afastando-se da ideia que dominou os primeiros dos 12 minutos de duração.

Ism é também um álbum de agradecimento aos que de alguma forma cimentaram a estrada de Junius Paul. “Fred Anderson and a Half”, que se faz valer de redondas linhas de baixo e bateria bem trabalhada, é dedicada a Fred Anderson, músico e proprietário do Velvet Lounge falecido em 2010 – o espaço onde Junius Paul chegou a ter uma residência fechou as suas portas definitivamente em 2019. “Ma and Dad”, como o nome o denuncia, é destinado aos seus pais, que o guiaram na sua caminhada musical desde tenra idade. O tema, esteticamente afastado dos restantes, conta com uma nobre secção de cordas, naquilo que aparenta ser uma reunião entre contrabaixo, violoncelo e violino (ou simplesmente Paul a explorar o seu contrabaixo em frequências que não as habituais), incutindo-lhe uma importante carga dramática, antes de “Two Minute Warning” e “Outro”, numa toada de agradecimento, dar por encerrada a audição da obra. Mais um para a lista dos melhores de 2019.