Altin Gün no Musicbox: De Nova Iorque a Lisboa, sem barreiras linguísticas

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“Isto é de loucos. No sábado passado estivemos em Nova Iorque, uma semana depois estamos aqui”. As palavras partilhadas por Merve Dasdemir, vocalista dos Altin Gün, sensivelmente a meio do espectáculo no Musicbox, espelham da melhor forma a caminhada ascendente do colectivo que divide o seu código genético entre Istambul e Amesterdão. É de acreditar que alguns dos elementos que o constituem ainda tenham que se beliscar de vez em quando para se certificarem que isto não se trata de um sonho. E não o é, de facto. Com apenas dois álbuns na bagagem, os Altin Gün estão aos poucos a alcançar o merecido estatuto no circuito das pequenas salas de espectáculo. Contudo, o concerto de ontem num Musicbox a abarrotar leva-nos a crer que não deverá faltar muito para a banda dar o próximo salto.

“Tatli Dile Guler Yuze”, uma das primeiras a ser escutada, é uma verdadeira declaração de intenções: bateria forte e demarcada, ligeiramente mais alta que os restantes instrumentos, para garantir o pulsar certo ao alinhamento; baixo gordo e carregado de groove, o sustento certo para os bombos e tarolas; percussões soltas, em constante alternar com a restante secção rítmica; guitarra eléctrica a garantir o caminho certo para o saz (instrumento tradicional turco); sintetizadores recortados, com os apontamentos a serem reproduzidos na perfeição, e, por fim, as vozes, embebidas no efeito certo, com a quantidade certa. Esta que é a canção de abertura de On, o álbum de estreia de 2018, terá sido para muitos dos presentes o passaporte para o colectivo. Faz todo o sentido ter sido escolhida para a primeira fase da performance.

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Não deixa de ser curiosa a forma como os Altin Gün abraçam o palco, por vezes furiosos e de unhas e dentes cravados nos seus instrumentos, como serve de exemplo o momento em que Erdinc Ecevit Yildiz, no centro do palco, larga o saz e se agarra aos sintetizadores, desenhando as mais belas melodias em escalas que nos transportam para o coração da Turquia, outras vezes mais descontraídos e introvertidos, hipnotizados pela sua própria música, como nos pareceu acontecer por diversas vezes com o guitarrista Ben Rider, localizado à esquerda de cena. Na posição central, mesmo ao lado de Erdinc, Merve Dasdemir divide-se entre vozes, sintetizadores e ainda agita umas maracas – isto quando não decide desfazer-se de tudo e ensaiar um ou outro passo de dança. À direita, Jasper Verhulst, o baixista, ginga nas imediações de um imponente armário de amplificação, enquanto, na retaguarda, Daniel Smienk e o português Alex Figueira – bateria e percussão respectivamente – sacodem os seus penteados na cadência da música.

Tudo isto é comprovável em “Leyla”, incursão a Gece, o mais recente trabalho da banda. A canção divide-se essencialmente em duas partes. Uma robusta e com frases firmes de sintetizador e bateria, espécie de “cavalgada” rock, outra suave e envolvente, na sua vertente mais psicadélica. A dinâmica sente-se também nos músicos, comprometidos com estas duas facetas como quem assina um pacto irrevogável com a mistura articulada. Outro dos destaques vai para “Gelin Halayi” (a “dança da noiva”, como nos traduz Merve Dasdemir), um dos mais recentes singles do colectivo, inspirado numa dança de índole matrimonial chamada Halay. O arranque faz-se com calma e contenção, dentro dos parâmetros da versão que conhecemos gravada, e, perto do final, dá-se a respectiva aceleração no ritmo, levando palco e plateia até ao cume das montanhas anatolianas. Belo.

Antes da recta final do concerto, “Goca Dünya”, novo mergulho em On, mostra que o idioma nunca foi nem nunca será uma barreira à celebração. A letra é cantada de ponta-a-ponta por alguns elementos da plateia e o refrão recebe a generosa retribuição de um afinado coro. A façanha repete-se em “Süpürgesi Yoncadan”, última antes do encore, com alguns versos a serem fidedignamente reproduzidos. Sublinhe-se a vibração singular desta música, das frases de sintetizador aos blocos de voz. Tudo muito bem doseado e equilibrado, com o objectivo de transmitir vibrações dançantes ao público (“braços no ar e estalinhos com os dedos”, exemplificou a “coreógrafa” Merve Dasdemir no início do tema). Um concerto para mais tarde recordar.

O arranque desta que foi a última noite do Jameson Urban Routes fez-se com os portugueses Môrus, duo constituído por Jorge Barata e Alexandre Moniz. Apesar da guitarra eléctrica e voz desnuda, este é um projecto que vive bastante da componente rítmica, articulada a partir de um possante conjunto de timbalões que fez estremecer as paredes do Musicbox. O vector resultante é sublime, com a força desejada e a clareza necessária. Há visitas ao cancioneiro português com “Menino do Bairro Negro”, de José Afonso, a cappella de abertura que teve direito a brilhantes vibratos, “Eu Vi Este Povo a Lutar (Confederação)”, de José Mário Branco, e, a finalizar, “Porque Não Me Vês”, de Fausto, munida de um interessante parágrafo de guitarra. Um projecto para seguir de perto.

Fotos: Ana Viotti