As seis fontes que inspiraram Yazz Ahmed na criação de um dos melhores álbuns de 2019

Posted by

É extensa a lista de nomes que surge nos créditos do novo álbum da trompetista britânica de origem baremita Yazz Ahmed, divididos entre trompetes, saxofones, trombones, vozes, piano, baixo, contrabaixo, percussão, violino, flugelhorn, clarinete, bateria, guitarra, vibrafone, glockenspiel, flauta, Kaos Pad e Fender Rhodes. A leitura destes itens requer algum fólego, é verdade, contudo, garante-nos que esta é uma obra rica e plural, erguida a várias mãos – entre os músicos que compõem o generoso rol destacam-se Nubya Garcia, Rosie Turton, Shirley Tetteh e Sheila Maurice-Grey, citando apenas alguns exemplos. Mas não é apenas a diversidade que está em jogo. Há muito mais além disso.

Polyhymnia, o título do disco – que é também o nome da musa grega da música, poesia e dança – é uma celebração da coragem, determinação e criatividade feminina. No fundo, é uma dedicatória a seis musas que serviram de inspiração para Yazz Ahmed, não só no que diz respeito aos ideais que defenderam no mundo da arte mas também às posições que tomaram no contexto da sociedade, revolucionando formas de pensar e agir, e transformando o próprio mundo.

“Lahan Al-Mansour”, o primeiro tema do álbum, é dirigido a Haifaa Al-Mansour, a primeira mulher saudita a tornar-se cineasta, conhecida por ter realizado Wadjda, um filme que conta a história de uma menina cujo maior sonho é ter uma bicicleta, não obstante o facto de, na sociedade onde vive, uma bicicleta ser coisa de rapazes (a bicicleta surge aqui também como símbolo de liberdade, de ser-se dona de si mesmo). “A temática é-me bastante familiar”, partilha a trompetista em conversa com o Clash Magazine. “Tem ecos na minha infância no Barém, onde andei secretamente de BMX no deserto”, recorda. A canção explora escalas e ritmos árabes, numa ligação com a película cinematográfica. “Eu quis pintar [no tema, com a ajuda dos instrumentos] uma vasta e imutável paisagem desértica para contrastar com o impulso incontrolável da sua determinação e coragem”, revela.

Ruby Bridges, activista norte-americana que ficou conhecida por ser a primeira criança negra a estudar numa escola primária até então só frequentada por brancos, é a segunda musa de Polyhymnia. “O tema é inspirado nas entrevistas que Bridges deu já em idade adulta, recordando o episódio em si e o facto de, enquanto criança, ter interpretado o ambiente de exaltação que a rodeava como uma parada Mardi Gras [famoso carnaval de Nova Orleães]”, adianta a artista, referindo-se a toda a onda de protestos que se levantou em torno do acontecimento, obrigando a menina de apenas seis anos a receber escolta no seu caminho para a escola, um momento retratado na famosa pintura The Problem We All Live With, de Norman Rockwell. “Decidi escrever ‘Ruby Bridges’ evocando o espírito de um carnaval de Nova Orleães, com uma melodia despreocupada e infantil em contraste com a harmonia dissonante, carregando uma sensação inquietante de ameaça”.

No seu trabalho anterior, La Saboteuse, lançado em 2017, Yazz Ahmed olhou para dentro e explorou as suas origens, servindo uma mistura entre jazz, sonoridades psicadélicas e música árabe. O álbum ganhou destaque nas listas de melhores do ano para plataformas como o Bandcamp, The Vinyl Factory e Stereogum, e alcançou o lugar cimeiro das escolhas da The Wire e do Bird is The Worm, deixando claro que Yazz Ahmed seria uma artista para seguir de perto no futuro. Em Polyhymnia, disco que será certamente considerado quando as selecções do presente ano se fizerem, Ahmed olha para fora e constrói uma obra a pensar nas conquistas de terceiros, no contributo de seis mulheres para um mundo melhor, mais justo e equilibrado. As misturas árabes continuam presentes – porém, não tanto como em La Saboteuse– e mantêm-se as longas viagens instrumentais que desde a sua estreia em 2011, com Finding My Way Home, se tornaram numa certeza.

“One Girl Among Many” é dedicada a Malala Yousafzai, activista que ficou mundialmente conhecida após ter sido baleada na cabeça por talibãs ao sair da escola em 2012, com apenas 15 anos, isto depois de se ter manifestado contra a proibição dos estudos para as mulheres no Paquistão. Yousafzai sobreviveu, viajou para Inglaterra para receber tratamento, continuou os estudos na Oxford University e tornou-se na pessoa mais nova de sempre a receber um Nobel da Paz. “O tema é inspirado e reúne excertos do seu discurso humilde e emocionante, proferido na United Nations Youth Assembly, em 2013”, afirma a compositora ainda na mesma entrevista. “Ao ouvir as suas palavras eloquentes, deixei-me impressionar com as qualidades musicais da sua voz. Nesta composição, extraí as melodias ocultas nas frases, escolhendo aquelas que maior impacto me causaram. Isto é uma técnica que eu encontrei primeiramente em ‘Different Trains’, de Steve Reich. Na minha peça vão ouvir as palavras de Malala proferidas em uníssono pelo ensemble, por vezes em premonição das melodias que se seguem, outras vezes como eco”.

Rosa Sparks é a musa que se segue, homenageada em “2857”. Popularizada por em 1955 se ter recusado a ceder o seu lugar num segregado autocarro em Montgomery, no Alabama, Sparks tornou-se num símbolo dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e é reconhecida pelo United States Congress como a “mãe do movimento de liberdade”. “Eu criei esta composição utilizando o número do famoso autocarro, 2857, como forma de retirar material melódico e métrico para trabalhar. A música tem relações muito próximas com a matemática. Contudo, neste caso, os números são uma forma de desbloquear uma resposta emocional mais profunda em mim, um pouco como usar hexagramas de I Ching para ajudar a tomar decisões. O resultado divide-se em duas metades: a primeira representa a dignidade silenciosa do protesto e a segunda mostra o poder e paixão incontroláveis do movimento que iniciou”.

O quinto tema de Polyhymnia é dedicado a Emmeline Pankhurst, fundadora da Women’s Social and Political Union, também conhecido como The Suffragettes, uma organização que lutou pelo sufrágio feminino no Reino Unido entre 1903 e 1917. “Deeds Not Words” é uma canção na qual Yazz Ahmed pede emprestados elementos de uma antiga música de batalha, “Men of Harlech”, usada pelas Sufragettes num dos seus hinos, “Shoulder to Shoulder”. “Começa com um improviso de bateria e percussão, evocando o som de trovões distantes, construindo um grito de igualdade. A melodia do hino tradicional é camuflada no início e reestruturada usando uma escala árabe e ritmos assimétricos para criar algo que reflete as minhas próprias experiências. As vozes do grupo juntam-se gradualmente, os fios individuais unem-se para formar uma poderosa linha única mais forte que a soma de suas partes”. O solo é uma conversa entre trompete, saxofone barítono, vibrafone e guitarra.

Por fim, “Barbara”. Nesta canção, Ahmed dirige o seu foco para Barbara Thompson, saxofonista e compositora britânica de jazz que vingou durante muitos anos numa cena musical predominantemente masculina. Entre os anos 70 e os 80, Thompson tocou nas mais variadas arenas a nível europeu mas a grande inspiração para esta última canção de Ahmed vem da sua luta de vinte anos contra a Parkinson. “Fiquei bastante comovida com o documentário da BBC Playing Against Time sobre a sua luta para continuar a tocar e a determinação em não parar de criar música apesar das condições físicas estarem cada vez mais debilitadas. Enquanto composição, ‘Barbara’ reflete o meu crescente interesse no minimalismo e é uma conclusão alegre e optimista para o álbum”, remata.

Polyhymnia começou a ser construído em 2015, ano em que a organização Tomorrow’s Warriors lançou o convite a Ahmed para esta compor uma peça para ser tocada pelos Nu Civilisation Orchestra num concerto inserido no Women of the World Festival, realizado no Southbank Centre, em Londres, no Dia Internacional da Mulher. Este é um álbum que carrega desde a sua génese uma missão, um propósito, um objectivo. E diga-se que foi cumprido de forma sublime.