Nérija – “Blume”

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A explosão do jazz britânico só será novidade para os mais distraídos. Aliás, chamar-lhe explosão nesta altura do campeonato, depois de tudo o que tem sido feito a nível discográfico e ao vivo, torna-se injusto. Nos dias que correm, já não se trata de uma manifestação mas sim de uma certeza.

We Out Here, a compilação com o selo da Brownswood Recordings, de Gilles Peterson, lançada a 9 de Fevereiro do ano passado, foi uma eficaz chamada de atenção, com vários músicos a gritarem alto os seus nomes e a deixarem uma visível marca musical na Ilhas Britânicas e no resto do globo. Participam nomes como KOKOROKO, Nubya Garcia, Ezra Collective, Maisha, Shabaka Hutchings e Joe Armon-Jones, entre outros. We Out Here tornou-se num modelo – inspirando a criação de Sunny Side Up, colecção de temas que visa colocar Melbourne no mapa das novas expressões jazz – e dá agora também nome a um festival, sito na vila de Abbots Ripton, em Cambridgeshire, Inglaterra, tendo-se realizado pela primeira vez entre 15 e 18 de Agosto deste ano.

Desta irmandade britânica fazem ainda parte as Nérija, um colectivo maioritariamente feminino formado por Sheila Maurice-Grey (trompete), Rosie Turton (trombone), Cassie Kinoshi (saxofone), Nubya Garcia (saxofone), Shirley Tetteh (guitarrista), Lizy Exell (bateria) e Rio Kai (baixo), o único elemento masculino (acrescente-se que alguns membros desta banda integram também os KOKOROKO, Maisha, Nardeydey e SEED Ensemble).

No passado dia 2 de Agosto, as Nérija editaram o seu primeiro trabalho de longa-duração, Blume, que sucede a um muito aplaudido EP de 2016. Blume é um álbum fantástico com sólidas fundações no jazz e um recheio que espraia nos mais diversos géneros, entre eles o hip hop e o rock. É uma obra policromática (tão colorida quanto as pinceladas que compõem a sua capa), repleta de palpáveis texturas e canções que, apesar da ausência da vertente lírica, falam por si, recorrendo a um muito específico e expressivo coro de saxofones, trompete e trombone.

O disco abre com “Nascence”, canção de cadência lenta que estende uma sólida passadeira vermelha às restantes composições e onde se testemunham os primeiros solos de metais, assentes em cama de cordas e bateria. Maurice-Grey, Kinoshi, Turton e Garcia alternam entre si o protagonismo, deixando os segundos finais à mercê dos breaks de Exell. Segue-se uma alegre “Riverfest” que rapidamente nos transporta para um ambiente festivaleiro, à beira-rio, com natureza em redor e corpos hipnotizados, a canção certa para servir de banda sonora a uma experiência num evento como o Nyege Nyege, realizado nas margens do Nilo Branco, em Jinja, Uganda. É um tema quente, alegre, extrovertido que nos ajuda a descodificar a linguagem das Nérija: este não um dialecto de clubes de jazz e de mesas redondas onde se pousam copos de vinho nos momentos destinados aos aplausos; é, isso sim, uma comunicação que se faz ao ar livre, de copo de cerveja na mão, pés assentes na terra e mente livre de padrões e conservadorismos.

“Last Straw”, por exemplo, soa banda sonora de películas de acção e aventura. O andamento sugere uma perseguição a alta velocidade ou até uma fuga em pleno coração da floresta por entre árvores e túneis em direcção a porto seguro. São os metais que constroem a narrativa e criam os momentos de suspense, a dinâmica da trama. A guitarra, por sua vez, marca o passo, enquanto a bateria serve de força motriz: a mistura perfeita para servir de cama às peripécias do mais famoso agente secreto britânico, por exemplo. Em “Last Straw” há um pouco de tudo: momentos calmos e pacíficos, crescendos que nos deixam na expectativa e desembocam num pináculo de agitação.

Segue-se a apaixonada “Partner Girlfriend Lover”, quase em jeito de serenata, com a guitarra de Tetteh a assumir o papel principal no corpo da canção. “EU (Emotionally Unavailable)” tem alma rock, por culpa da linguagem da bateria, com os breaks e as abordagens aos pratos de choque a trazerem à memória os anos 90 de Seattle. “Blume” dá descanso ao instrumento de percussão, num agradável passeio melódico, com direito a coros no último terço do trajecto (“Blume II”, a última do álbum, segue-lhe as mesmas pisadas mas com ligeiros apontamentos nos pratos), enquanto “Equanimous” se aproxima dos ritmos da bossa nova. “Swift” e “Unbound” recuperam a essência de “Riverfest”: expansivas, festivas, de sorriso na cara e temperaturas quentes nos ritmos e melodia, ramificações claras do afrobeat.

É vasto o leque de inputs presente em Blume mas é ainda maior o entendimento entre os elementos envolvidos, resultado de vários anos de partilha e aprendizagem na Tomorrow Warriors, uma organização de educação e desenvolvimento de música nos meandros do jazz. Dentro das novas expressões jazzísticas britânicas, Blume é sem dúvida uma das melhores obras do ano, a par de Fyah (Theon Cross), Trust In The Life Force Of The Deep Mystery (The Comet is Coming) e Bedroom Tapes (Ebi Soda).

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