A música dos KOKOKO! não pede licença para entrar. Será este um caso de invasão ao domicílio?

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We Are KOKOKO! é o título de um pequeno vídeo do Youtube – com cerca de três minutos – que apresenta os KOKOKO!, um colectivo da República Democrática do Congo que cruza a sonoridade de instrumentos artesanais, de fabrico caseiro, com música electrónica. Há instrumentos de percussão criados a partir de máquinas de escrever, uma espécie de harpa que conduz as suas cordas até um conjunto de embalagens de alumínio, o esqueleto de um electrodoméstico que assume o papel de bombo, acompanhado pela tarola e pelo devido set de pratos, e um entrelaçado de cobre que se estende horizontalmente num braço de madeira para servir de guitarra.

A génese é de fácil compreensão: amigos de longa data, oriundos de Ngwaka, um bairro de Kinshasa, com uma enorme paixão pela música mas sem possibilidades financeiras para comprar instrumentos – a esmagadora maioria da população não tem dinheiro para adquirir material profissional, estando muitas vezes esse acesso limitado a pastores evangélicos e à igreja. Como resposta a essa restrição (“a sobrevivência alimenta a criatividade”, aparece a dada altura do vídeo), os KOKOKO! decidem construir os seus próprios instrumentos a partir do lixo recolhido das ruas, algo que não só contribuiu para o desenvolvimento de técnicas únicas, longe das utilizadas nos objectos que tentaram de certa forma copiar, como também para moldar uma sonoridade díspar – o que começou por ser uma necessidade transformou-se, depois, numa assinatura.

Através da produtora local Bella Kinoise e do projecto Africa Express, que promove colaborações musicais sem fronteiras à boleia de uma série de álbuns e digressões feitas em comboios, os KOKOKO! conhecem o produtor francês e aficionado da música africana Débruit, um elemento fundamental no ADN do colectivo. “Certo dia, o Renaud da Belle Kinoise chegou a Kinshasa com alguns temas do Débruit e nós ficámos boquiabertos”, contou o colectivo à revista i-D, em 2017. “Sempre quisemos gravar a nossa música de uma forma moderna e com o foco nas pistas de dança, mas é impossível em Kinshasa pois não existe sequer a intenção de produzir esse tipo de som e ninguém sabe como fazê-lo”.

Débruit não se fez rogado: improvisou um estúdio a partir de colchões e mesas de pingue-pongue, comprou um conjunto de microfones de marca branca e juntou-se ao grupo para desenvolver a textura que hoje conhecemos. “Depois de ouvir o quão à frente eram a nível de pensamento e de experimentação, e depois de me ter focado em ouvir e em gravá-los”, partilha o artista francês nessa mesma entrevista, “liguei os meus próprios instrumentos para eles verem o que achavam da minha aproximação. Foi uma reacção positiva e instantânea que aconteceu durante uma colaboração ao vivo improvisada noite dentro”, recorda.

É nas ruas que os KOKOKO! encontram uma boa parte da sua inspiração. “Kinshasa é uma cidade onde ouves mais do que vês. Tudo tem o seu som, grande parte deles facilmente identificáveis: o vendedor ambulante de verniz com as suas garrafinhas com os seus próprios ritmos, os comerciantes de gasolina chamados Kadafis e o som das suas embalagens, os vendedores de cigarros… somos inspirados por isso e pelo tumulto da cidade. Kinshasa é uma cidade que podes ouvir”, concluem. No vídeo We Are KOKOKO! é possível ver dezenas de pessoas a dançar ao som do colectivo, num ambiente de festa, na rua, em varandas ou até no interior de prédios devolutos, transmitindo a ideia de que os KOKOKO! não só encontram a sua essência na rua como também contribuem para que as mesmas ganhem uma nova vida, alegre, resplandecente, dançante, esperançosa, com um sentimento de comunidade e partilha.

No que diz respeito à mensagem, os KOKOKO! têm como uma das principais missões mostrar ao mundo que o facto de serem oriundos da República Democrática do Congo não implica que tenham que articular os estilos mais populares do país, grande parte deles enraizados na rumba congolesa, importada de Cuba nas décadas de 30 e 40 e misturada com elementos africanos. “Em Kinshasa não existe um paradigma musical mas existem músicos em todas as casas”, adiantam ainda ao i-D. “A cena musical tem sido controlada pelas estrelas do Ndombolo [género musical]. Eles sufocam qualquer artista novo que tenta singrar na indústria, com atitudes estilo máfia. Mas as coisas mudaram recentemente. Hoje em dia há um grande sentimento de revolta contra a posição dos artistas dos 90s e 00s, os veteranos que não faziam nada além de cantar e comprar as autoridades. Hoje, muitos jovens criadores recorrem a experiências e formas de expressão mais radicais, como nós”.

As influências do colectivo podem tão depressa centrar-se na música congolesa dos anos 70 e 80 e em bandas como Franco & TPOK Jazz, Pépé Kalé, Tabu Ley e Zaïko Langa Langa como espraiar na obra de 2Pac e Biggie ou até nas expressões electrónicas directamente ligadas às pistas de dança. “Hoje em dia há muita música africana bem produzida e batidas dançáveis. E ao mesmo tempo que somos eclécticos, a base a inspiração ainda se centra na etnicidade. Existem 450 tribos na República Democrática do Congo, é um mundo sem fim. É o coração de África e do resto do mundo”, afirmam.

Os KOKOKO! representam a urgência de mudar um paradigma, de provar que se pode fazer muito a partir de pouco (no caso dos instrumentos utilizados) e que é possível construir algo que não esteja obrigatoriamente ligado às raizes – o próprio nome do colectivo, traduzido para a onomatopeia “knock, knock, knock”, representa a pressa de entrar em algum lado, de romper com alguma coisa. “É como quando alguém está em perigo, mas não tem tempo de esperar pela resposta. Essa pessoa bate à porta e só quer entrar”, revela o vocalista Love Lokombe ao Red Bull Music Academy.

No passado dia 5 de Julho de 2019, o colectivo editou Fongola, o primeiro registo de longa-duração (que sucede um EP e um conjunto de singles), uma jornada “tórrida, anarca e juvenil que desenha um novo caminho através da vida moderna da terceira cidade mais populosa de África”, como é possível ler no Bandcamp da banda. No artigo que assina para o The Guardian, publicado no dia que se seguiu ao lançamento do disco, Kate Hutchinson afirma que este é “um dos numerosos grupos que estão a afastar os estereótipos da música africana, mostrando que esta pode ser contemporânea e não estar constantemente enraizada na tradição”. Se porventura os KOKOKO! vos baterem à porta, deixem-nos entrar, não se irão arrepender.

A próxima tentativa acontece já no próximo dia 14 de Agosto, no Vodafone Paredes de Coura.

https://open.spotify.com/album/78OaNCgtn4kLfU9IC2Lw6i?si=8pvWHM4wQlC9ATW9fV827Q