Carapaus Afrobeat no Titanic Sur Mer: Como peixe na água

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“Toquemos”, partilha Gabriel Muzak, guitarrista, vocalista e líder dos Carapaus Afrobeat ao microfone, depois de apresentar a sua banda ao público do Titanic Sur Mer, tendo descartado os apelidos dos elementos como forma de simplificar a tarefa. Trata-se de um ensemble de nove músicos, que dividem as suas origens entre o Brasil e Portugal: Guilherme na guitarra, Cláudio nas teclas, Afonso na bateria, Ricardo no baixo, Duvale na percussão (o aniversariante da noite), Alexandre no saxofone, Cláudio no trompete e André no trombone.

Apesar de estarmos perante um pelotão especialmente formado para este concerto em questão, como Muzak fez questão de sublinhar várias vezes ao longo da noite (alguns dos constituintes não integram a formação original), os músicos entendem-se como se tocassem juntos há décadas. Tome-se como exemplo o tema que se segue à pausa para apresentações. As teclas dão o tiro de partida e são prontamente secundadas pela percussão, baixo e bateria. No preciso momento em que o saxofone entra, os outros instrumentos calam-se de imediato e deixam o majestoso objecto cobreado a “falar” sozinho e a expor sua riqueza melódica. Durante uns segundos há só saxofone e reverb. Muito reverb. Atiram-se umas palavras soltas para o ar, como forma de puxar por Alexandre, e, pouco depois, dá-se o regresso dos restantes instrumentos para a continuação da saga. Tudo muito bem coordenado.

A noite teve como principal missão a apresentação de Night Fever, o primeiro álbum dos Carapaus Afrobeat, editado este ano. “Kounta Dinheru”, que na sua versão gravada beneficia da participação de Karlon Krioulo, membro dos Nigga Poison, foi um dos temas trazidos a palco, com Gabriel Muzak a tomar as rédeas dos versos do rapper, que infelizmente não marcou presença. A canção tem o balanço certo e contagia de imediato as dezenas que se acercam do palco. Há muitos connaisseurs do repertório do colectivo na plateia mas há também quem esteja a pisar este chão pela primeira vez – e isso percebe-se nos rostos que misturam surpresa e satisfação.

Apesar de terem a palavra “afrobeat” escarrapachada no nome que escolheram para se baptizar e de articularem maioritariamente o estilo fundado e desenvolvido pelo gigantesco Fela Kuti, o colectivo vai beber a outras sonoridades vizinhas que, mesmo fazendo parte da receita do afrobeat, como é o caso do funk, são interpretadas num contexto que se aproxima mais de James Brown do que propriamente do músico e activista nigeriano. Ouve-se “Sossego”, de Tim Maia, servida com o vigor e cadência desejados, contaminando instantaneamente a audiência – sensivelmente a meio, ouvem-se umas palavras rapadas por Duvale, a quem a banda canta de seguida os parabéns.

E há também rock. Não no sentido das guitarras distorcidas (apesar de a dada altura termos sentido o instrumento de cordas a abandonar a sua textura limpa e a encorpar-se de ligeiro) e dos tempos quaternários mas sim de um ponto de vista de atitude, entrega e sede de vitória. Tivessem metade das bandas que pisam esses grandes palcos a destreza e o apetite dos Carapaus Afrobeat, e reduzir-se-iam a metade as vezes que saímos dos concertos com a desilusão estampada na cara. Ontem, no Titanic Sur Mer, a satisfação foi geral.