Sunny Side Up: Melbourne também tem uma palavra a dizer

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Primeiro Londres, agora Melbourne. Sunny Side Up, compilação com a tutela de Gilles Peterson, não procura ser apenas uma resposta a We Out Here – que agrupa vários músicos londrinos numa frutífera rodela – mas sim uma monumental declaração de existência de uma efervescente expressão musical na Austrália, com várias bandas a unirem esforços para colocarem Melbourne no moderno mapa mundial da música de inspiração jazz.

Como qualquer sismo, este também tem o seu epicentro, e é importante partir de lá antes sequer de conhecermos os protagonistas do enredo.

Tudo começa no Grove, um espaço de renome a norte de Melbourne, no subúrbio de Coburg – foi no interior destas quatro paredes que, durante uma semana, um conjunto de músicos australianos se enclausurou para gravar Sunny Side Up. Mas o misticismo deste espaço vai muito além disto. “Conhecido como o Grove, a propriedade faz parte de uma série de estúdios compartilhados onde Hiatus Kaiyote – o mais famoso projecto dentro da cena – gravou a sua música”, assim nos explica o artigo ‘Confidence and swagger’: how Melbourne’s future jazz scene won over Gilles Peterson escrito por Nick Buckley para o The Guardian.

A compilação foca-se sobretudo em dois grupos que vivem interligados: os 30/70, um colectivo formado por músicos como Allysha Joy, Ziggy Zeitgeist e Henry Hickse, e os Mandarin Dreams, do qual faz parte o baterista dos Hiatus Kaiyote, Perrin Moss. E é precisamente em torno dos Hiatus Kaiyote que o artigo continua. Paul Bender, o baixista, recorda os tempos que se antecederam o boom da banda, em 2012, numa altura em que morava com aficionados de jazz, passava tempo com músicos de electrónica e frequentava festas underground anarquistas. “Havia essa cena louca de armazéns. Todo o tipo de música estranha de inspiração cigana, cruzamentos desse género”, recorda, referindo-se ao espírito de mistura e partilha que acontecia em enormes armazéns em Melbourne.

Talvez esta vivência tenha definido uma boa parte do ADN dos Hiatus Kaiyote, cujas influências vão do soul à electrónica e do psicadélico ao acústico num piscar de olhos, atravessando um mar de músicos como os Led Zeppelin, Bill Evans, Fela Kuti, Tony Allen, Aretha Franklin, Radiohead, Al Green, Bjork, Flying Lotus, Mulatu Astake, Animal Collective e Stevie Wonder, entre outros.

Deixemos os Hiatus Kaiyote por instantes e foquemo-nos na compilação. Sunny Side Up, editada no passado dia 19 de Julho através da Browswood Recordings, concentra, ao longo de nove temas, os trabalhos de Phil Stroud, Dufresne, Kuzich, Audrey Powne, Zeitgeist Freedom Energy Exchange, Laneous, Horatio Luna, Allysha Joy e Silentjay, assumindo este último também o papel de director musical. Em conversa com o The Vinyl Factory, Silentjay recua até à génese do movimento. “Eu acho que vem da nossa cultura DJ”, explica. “Uma série de DJs de Melbourne são conhecidos por passar disco, house, soul, funk, e acontece muitas vezes sermos convidados para servir de suporte a DJs de house e vice-versa, existe muito este tipo de cruzamento. É por isso que a malta jovem que veio de escolas jazz começa agora aos poucos a fazer batidas house com jazz por cima”.

E aproveita para traçar um pouco da história de Melbourne. “A transição entre o disco dos 80, o house dos 90 e o broken beat dos 2000 prova que existe uma linhagem consistente a nível de história e influência. Estamos tão afastados do resto do mundo que não nos conseguimos focar num som apenas, é ao mesmo tempo uma maldição e uma bênção. Por isso é que muitos de nós tentam ao máximo absorver o que nos rodeia, e é através desse processo de experimentação com diferentes estilos que conseguimos criar a nossa própria cena”.

Produtor, saxofonista e beatmaker, com fortes raízes na soul e no hip hop, Silentjay, que assina “Eternal / Internal Peace”, uma das faixas mais interessantes do álbum, onde se conjugam linhas de saxofones, pianos, percussões e guitarras acústicas numa toada quase bossa nova, estudou jazz na Victorian College of the Arts, uma conceituada escola de artes em Melbourne. “Acho realmente interessante o cruzamento entre as pessoas que frequentaram aulas e as que não”, confessa. “Eu acho que as pessoas que não estudaram jazz pensam na música de forma diferente, que me parece a mim ser mais criativa e definitivamente mais livre. Essa mistura é que cria sons interessantes e música original. Reparei que isso acontece também em Londres. Há também a convergência entre músicos e produtores, ou pessoas que se tornaram músicos através da produção. Compreender os dois mundos muda a tua abordagem e musicalidade”, conclui.

As constantes comparações com Londres acontecem de forma natural, por uma questão de identificação. De facto, se olharmos para a capital britânica é possível encontrar, assim como em Melbourne, músicos com formação jazz que se negaram a ficar presos nos contornos tradicionais – e por vezes conservadores – do género, alargando os horizontes aos estilos com que cresceram, do reggae ao afrobeat, do drum and bass ao hip hop e do grime ao dub. We Out Here reúne alguns desses artistas: Ezra Collective, Moses Boyd, Theon Cross, Nubya Garcia, KOKOROKO e Shabaka Hutchings, entre outros.

Sunny Side Up abre com “Banksia”, um tema hipnótico da autoria do percussionista Phil Stroud, sucedendo-o uma belíssima epopeia jazz-funk pelas mãos de Dufresne intitulada “Pick Up / Galaxy”. Segue-se a faceta meditativa de Kuzich em “There Is No Time”, a voz inebriante de Audrey Powne em “Bleeding Hearts”, o ritmo energético e magnetizante dos Zeitgeist Freedom Energy Exchange no agitado “Powers 2 (The People)”, o baixo encorpado de Laneous em “Nice to See You”, o foco na pista de dança de Horatio Luna na contagiante “The Wake-Up”, e, por fim, o remate suave e harmonioso de Allysha Joy em “Orbit”.

Parece haver um sentimento de unidade inerente a esta compilação, quase como se as canções tivessem sido compostas, ensaiadas e gravadas em formato jam session – este parece ser um dos principais fios condutores da obra. Mas antes sequer de estes artistas terem decidido a dada altura da sua vida começar a fazer música, já havia quem, em Melbourne, desse o tudo por tudo para impulsionar o movimento.

Silentjay olha para Chris Gill, a pessoa responsável pela Northside Records, uma importante loja de discos que desempenhou um papel fundamental na divulgação da música local, como uma espécie de padrinho da nova cena musical de Melbourne. “Eu ia à loja dele e ficava algo intimidado com a sua presença”, recorda o produtor. “Ele apoiou a cena desde que o conheço, recorrendo também ao seu programa de rádio. Ter alguém assim tão orgulhoso do que se passava em Melbourne é muito importante mesmo. Essas comunidades sempre existiram em Londres, mas é diferente em Melbourne – somos tão jovens em comparação. Ter alguém mais velho como o Chris a apoiar e a amar o que estava a acontecer deu-nos confiança”.

Um outro nome importante para tal desenvolvimento foi, na óptica de Silentjay, Lance Ferguson, líder do colectivo The Bamboos, uma banda que se expressa no universo do funk, soul, broken beat, house, hip hop e bossa nova. “Era uma banda para a qual os artistas mais novos olhavam”, garante, acrescentando “é por causa de pessoas como o Gill e o Ferguson que Melbourne tem uma sonoridade tão funk e soul”.

Os Hiatus Kaiyote são descendentes directos dessa influência. “As pessoas que tiveram a sorte de experienciá-los em Melbourne antes da explosão já sabiam que eles iam fazer parte de algo especial. Eu acho que os Hiatus Kaiyote foram um grande momento – uma série de bandas inspiraram-se neles para serem mais originais e encontrarem o seu próprio som”, sublinha Silentjay. “Vê-los alcançar o reconhecimento por parte dos nossos ídolos dá-nos força para continuar”, remata.

Sunny Side Up foi gravado em duas salas distintas – mas interligadas – do Grove. A primeira delas carregada de teclados, sintetizadores e órgãos vintage pertencentes a Simon Mavin, dos Hiatus Kaiyote. A segunda, onde se encontram as salas de captação de bateria, guitarra e baixo, e onde está montada a mesa de mistura do engenheiro de som Nick Herrera (Hiatus Kaiyote, Nai Palm, 30/70). Ambas as salas usufruem de um setup que permite que os efeitos aplicados em pós-produção possam ser ouvidos em tempo real. “O artista consegue assim vibrar com as nossas decisões e não estar às escuras como um actor sobre um fundo verde”, partilha Herrera no já referenciado artigo do The Guardian.

A derradeira palavra da peça jornalística de Nick Buckley cabe a Allysha Joy, a voz que encerra também a compilação. “Eu acho que Melbourne tem a consciência de não querer apropriar-se de nenhum som em particular. Isso quer dizer que as pessoas estão a surgir com ideias realmente interessantes e novas combinações de sons”, reflete. “Se comparares [Sunny Side Up] com We Out Here, consegues quase ouvir o espaço que ocupamos em Melbourne. Consegues sentir a conexão com a natureza. Eu sinto-o na percussão, no espaço e no movimento livre das melodias”.