KOKOROKO no FMM Sines 2019: Comunicasom

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Londres, Londres e novamente Londres. A capital britânica tem sido uma presença assídua nos festivais portugueses e a sua nova expressão jazz tem correspondido com as expectativas. Dos concertos solitários de Nubya Garcia e Joe Armon-Jones aos espectáculos imaculados dos Sons of Kemet e Ezra Collective, todas as apostas têm sido ganhas e dignas de ocupar lugares no pódio das melhores performances deste ano em festivais.

O mesmo pode ser dito da passagem dos KOKOROKO, ontem, pelo Festival Músicas do Mundo, em Sines. O colectivo britânico serviu um espectáculo curto e intenso que colocou o interior das muralhas do Castelo, espaço escolhido para albergar os concertos nocturnos (houve ainda Le Trio Jourban, Gipsy Kings by Diego Baliardo e Branko), a dançar – à boleia de sonoridades que se passeiam maioritariamente nos campos do jazz e do afrobeat.

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“Colonial Mentality” é o primeiro tema a ser interpretado pelo colectivo. Calmo, de percussões bem salientes, o tema traz à noite ventosa o calor africano, coadjuvado não só pelo título mas também pelo próprio lettering que serve de pano de fundo ao cenário, com as letras que formam a palavra KOKOROKO a aludirem a bonecos que dançam de braços erguidos, livres desenfreados, longe de barreiras políticas e culturais – um pouco à imagem da música dos KOKOROKO, que em urhobo (dialecto do sul da Nigéria) significa “sê forte”, e da missão daquela que é a grande bússola deste jovem conjunto de músicos, Fela Kuti.

Activista político, defensor dos direitos humanos e fundador do afrobeat, Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti é por diversas vezes citado nas entrelinhas das canções dos grupo londrino e chega a ser efectivamente evocado nas palavras da trompetista e líder Sheila Maurice-Grey. “Quantos de vocês conhecem o Fela Kuti?”, questiona obtendo uma resposta imediata e consensual por parte da plateia. Nos entretantos, há solos de saxofone, trombone e teclas, articulados por Cassie Kinoshi, Richie Seivwright e Yohan Kebebe, respectivamente. A execução sugere-nos uma viagem a um lendário clube de jazz – escolha-se o Ronnie Scott’s, por exemplo – mas o resultado final, na conjuntura rítmica e melódica, convida-nos a um passeio espiritual pela costa ocidental africana.

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Segue-se “Abusey Junction”, a canção mais popular do colectivo – nove milhões de reproduções no Spotify (“Uman” é a faixa que vem logo a seguir, com 800 mil reproduções…) e 31 milhões de visualizações no Youtube. O começo é lento, hipnótico, envolvente, com a guitarra de Oscar Jerome a beneficiar da excelente mistura sonora que nos chega do PA (e que bem esteve durante todo o concerto, com um notável equilíbrio entre frequências) e a soar praticamente igual à versão gravada.

“Abusey Junction” traz à memória aquelas equações extraordinariamente simples dos tempos da primária, com somas atrás de somas e multiplicações que não pedem recurso à calculadora. Os instrumentos vão-se adicionando na perfeição, com uma naturalidade extrema sem nunca soar a forçado ou desnecessário. Primeiro, a melodia da guitarra do já mencionado Jerome; depois, as percussões de Onome Edgeworth, e logo a seguir a secção de metais do núcleo duro dos KOKOROKO, composto por Sheila, Cassie e Richie. São elas que, na linha da frente, dão alma ao corpo rítmico articulado na retaguarda, aproveitando os momentos em que não estão efectivamente a tocar para ensaiar um ou outro passo de dança. E quando tudo soa a perfeito e pensamos que nada mais faz falta na mistura que se acerca dos nossos ouvidos, eis que o trio de metais decide colar a voz ao microfone, como quem coloca uma deliciosa cereja sobre um magistral bolo. Não admira que “Abusey Junction” coleccione tão elevado número de escutas. É uma canção incrível. E ao aplaudir, já no final, o público está a reconhecê-lo.

Os KOKOROKO contam com um EP apenas, de título homónimo, editado no passado dia 8 de Março, Dia Internacional de Mulher. O manifesto é óbvio e incontornável, estendendo-se à própria estrutura do colectivo e à mensagem transmitida. Contudo, não deixa de ser interessante a dicotomia que existe nesse campo entre a banda, cuja secção de metais é toda ela feminina, e o próprio Fela Kuti, que não teve uma postura particularmente feminista ao longo de sua vida. Em conversa com o site Music in Africa, em 2017, Onome deu o seu parecer sobre essa questão. “Fela não era definitivamente um homem perfeito – mas o que aprendemos com ele é como usar a nossa voz e o veículo para a transmitir. Falar é grande parte do seu legado”, pode ler-se.

Comunicar faz parte do ADN dos KOKOROKO. E mesmo quando isso não acontece na forma falada, como conhecemos e estamos maioritariamente habituados, surge em forma de música, como em “Adwa”, uma das últimas do alinhamento. Se a guitarra de Oscar Jerome e a bateria de Ayo Salawu não são dos mais eficazes convites para a dança alguma vez endereçados, então não sabemos que palavras poderão desempenhar melhor papel. Muito bom concerto.

Fotos: Inês Sofia Pereira, Rimas e Batidas