Algures entre Leeds e África residem os Nubiyan Twist

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Não se deixem iludir pelo nome. Os Nubiyan Twist, colectivo nascido em Leeds mas estabelecido em Londres, pouca ou nenhuma ligação têm com a música articulada na Núbia, região no Vale do Nilo que é actualmente partilhada pelo Egipto e Sudão. O nome da banda deriva, na verdade, de Nubiya Brandon, líder e vocalista que divide o seu protagonismo entre rap, canto e spoken word, e que encontrou o perfeito baptismo para o colectivo numa canção de Lauryn Hill em que esta evoca um penteado específico, o Nubyian Twist.

Os membros do colectivo conheceram-se na Leeds College of Music, um importantíssimo conservatório que forma alunos nas áreas da música clássica, popular, jazz, folk, produção e indústria musical. “A maioria de nós estudou lá”, revela Nubiya em conversa com o site Rhythm Passport. “Frequentávamos diferentes cursos mas fazíamos parte do mesmo grupo social. Éramos unidos mas separados ao mesmo tempo. Lembro-me que tudo começou quando eu conheci o Tom Excell [guitarra] em 2011. Falávamos muito sobre música na altura, é por isso natural que tenhamos iniciado uma banda”, completa.

Actualmente, os Nubiyan Twist são dez elementos, divididos entre secção rítmica, metais, electrónica e vozes. Já foram oito e chegaram, inclusive, a ser 12. O núcleo duro é, contudo, formado por três pessoas: Nubiya Brandon, Tom Excell e Joe Henwood (saxofone barítono). “Não tínhamos grande direcção musical quando começámos”, relembra a vocalista. “Gravámos a nossa primeira música no quarto, mas nem sequer tínhamos ideia daquilo que queríamos. Para mim, era mais escrever letras e poesia do que fazer música. Não sabia o que era um arranjo ou o que era fazer música com um computador. Nunca tinha estado num estúdio até à altura. Por isso, dei o meu melhor nos beats produzidos pelo Tom. Joe acrescentou uns solos e, de repente, aquilo que era para ter sido um simples ensaio, transformou-se num projecto”.

Nubiyan Twist, o álbum de estreia, tornado público em 2015, compila trabalhos que o grupo havia realizado até então, muitos deles pensados e executados em âmbito escolar. “algumas das músicas foram escritas para cursos ou projectos universitários”, conta Denis Scully, saxofonista tenor. “Eu acho que o primeiro álbum para qualquer banda é uma acumulação de trabalho escrito e tocado ao longo de vários anos. Só depois, quando gravas o seguinte, é que te trancas no estúdio a criar”, reflete.

Hip hop, afrobeat, dub e jazz são algumas das coordenadas que podemos encontrar no mapa musical dos Nubiyan Twist. O cruzamento entre a secção de metais e as guitarras concedem-lhes, por um lado, uma textura próxima da desenvolvida pelo lendário Fela Kuti, ao mesmo tempo que a componente vocal nos transporta, por vezes, para o imaginário de Erikah Badu ou até Lauryn Hill. Pelo meio é possível encontrar ainda apontamentos de reggae, música latina e funk.

Quanto maior a fusão de géneros musicais, mais difícil se torna definir a sonoridade de uma banda. “Acontece-nos muito quando os nossos PRs nos pedem para escrever uma pequena sinopse da banda quando vamos tocar a alguma sala de concertos”, admite Denis. “Dás por ti e acabas por enumerar todos os estilos. Tudo muda, assim como nós também mudamos. No primeiro álbum, por exemplo, éramos mais afrobeat, enquanto em Siren Song [EP, 2016] nos tornámos mais neo soul e ska”, completa.

As diferenças entre Siren Song e o álbum de estreia são evidentes e devem-se a uma natural maturação na fundação e edificação da obra. “Aconteceu muita coisa durante o processo de construção do álbum”, ressalva Nubiya. “O Oliver Cadman [teclista] mudou a dinâmica das gravações. Trouxe uma nova vibração soul. Também contribuiu com algum jazz, com o qual já estávamos também familiarizados. Os nossos gostos também mudaram e focámo-nos mais naquilo que gostamos e não gostamos de tocar”, conclui.

A par da vertente soul de Oliver existe também o lado de Tom, que além de ter treino clássico de guitarra é igualmente experiente no campo da música electrónica, algo que se estende, compreensivamente, às áreas da produção e mistura.

No passado dia 15 de Fevereiro, os Nubiyan Twist editaram o seu mais recente título de longa-duração, intitulado Jungle Run. Este é um disco que além de percorrer as influências anteriormente referidas e somar a experiência de todas as partes constituintes, ainda recebe inputs directos e indirectos de nomes como Mulatu Astaque, pioneiro do ethiojazz (“Addis to London”), Tony Allen, símbolo do afrobeat (“Ghosts”), e K.O.G., um talentoso músico ganês, líder do colectivo KOG & The Zongo Brigade (“Basa Basa” e “They Talk”).

Gravado nos Henwood Studios, espaço pertencente à própria banda, Jungle Run percorre vários panoramas. Há o lado hip hop e soul, presente em “Brother”, “Sugar Cane” e “Permission” (cuja letra versa sobre racismo); a linguagem dub utilizada em “Jungle Run” (com excelentes exercícios de delay); a toada bossa nova de “Borders” (com Pilo Adami a contribuir na percussão), e, claro, toda a ligação a África de “Basa Basa”, “Addis to London” e “Ghosts” (convergência perfeita entre ritmo e melodia). Vale a pena ouvir.

https://open.spotify.com/album/3VOw8wKhsIWTwwg818oIbp?si=AjhgU6V0QRCxshQUxnVlAA