JIMH e a nova música árabe

Posted by

Jerusalem In My Heart (JIMH) é um projecto audiovisual, formado em 2015 pelo músico e produtor Radwan Ghazi Moumneh e pelo cineasta especializado em películas experimentais analógicas Charles-André Coderre, que girou o mundo durante cerca de uma década com um espectáculo de música e vídeo e cujo grande objectivo era não repetir o mesmo conceito visual duas vezes. Para tal, o duo muniu-se de uma forte componente multimédia e teatral, trunfos importantes para a variedade e inovação. Os moldes mantiveram-se durante anos até que, em 2012, Moumneh decide apostar numa vertente mais ligada ao estúdio e às edições discográficas, editando, um ano depois, Mo7it Al-Mo7it, o primeiro registo de longa-duração.

Radwan Ghazi Moumneh nasceu no Líbano mas mudou-se muito cedo para o Canadá, país para onde a sua família fugiu devido à guerra civil, isto depois de terem tentado a sorte do principado do Omã. Desiludida com o ambiente e o estilo de vida no Canadá, a sua família decide regressar para o Líbano poucos anos depois. Moumneh escolhe ficar e é a partir daí que trava conhecimento com Howard Bilerman, Thierry Amar e Efrim Menuck, nomes ligados à produção musical e às bandas Godspeed You! Black Emperor e Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra, sendo igualmente detentores dos estúdios Hotel2Tango. Radwan junta-se à sociedade e, passados uns tempos, dada a necessidade de aumentar a área do complexo, compram, em conjunto com a Constellation Records e a Grey Market Mastering, um edifício para alocar os armazéns, estúdios e escritórios de todas as partes envolvidas.

Além de Mo7it Al-Mo7it, os JIMH contam com mais dois álbuns de estúdio, If He Dies, If If If If If If (2015) e Daqa’iq Tudaiq (2018), todos eles lançados com o selo da Constellation Records. Em qualquer uma das obras, Moumneh junta o buzuq, um alaúde de pescoço longo com trastes relacionado com o bouzouki grego e o saz turco, aos cantos melismáticos tradicionais árabes e veste-lhes uma indumentária moderna ornamentada de sintetizadores modulares, filtros de frequência e distorções harmónicas. Pode-se dizer de uma forma muito sucinta e algo superficial que cruza as suas raízes do Médio Oriente com as vivências ocidentais adquiridas da radicação no Canadá e das digressões mundiais na companhia de Charles-André Coderre. Mas há muito mais além disso. Moumneh conta com um generoso espólio de produção para outros artistas, assim como trabalho técnico realizado nos estúdios que detém, além da paixão que nutre por todas as expressões minimalistas oriundas dos anos 70 e 80, bem como toda a electrónica berlinense da década de 80.

O nome do colectivo sugere – mais do que uma coordenada geográfica ou um suposto saudosismo – um estado de espírito. Com tanto conflito e desentendimento político, Jerusalém só pode existir na mente e no coração, já que seria, na óptica dos artistas em questão, impossível uma ligação física com a cidade. A toada de reflexão e crítica não se fica por aqui e estende-se igualmente ao conteúdo das letras cantadas por Radwan Moumneh, que, por entre longas e profundas melodias próximas do lamento, vai cantando sobre alguns dos problemas que mancharam e continuam a manchar o seu país de origem, como a já mencionada guerra civil e o sistema político que nada mais faz do que manter o povo sob controlo ao mesmo tempo que se multiplicam as más decisões de liderança e as constantes traições.

Ainda que os anos tenham passado e que o projecto se tenha dedicado às edições discográficas, os JIMH nunca abandonaram a componente audiovisual presente na sua génese. O vídeo continua a ser um elemento forte da música criada, como é possível testemunhar nos conteúdos da banda presentes na plataforma Youtube. Moumneh diz-se, inclusive, mais influenciado pela sétima arte do que propriamente pela música. “É um meio que mexe muito mais com os meus aspectos criativos”, pode ler-se numa entrevista para a Fact Mag em setembro de 2015. “Gasto muito mais tempo a ver filmes do que a ouvir música e sinto-me muito mais relacionado com eles, daí a influência”, remata. É por isso normal que os discos de JIMH carreguem consigo todo um lado cinematográfico onde facilmente se consegue imaginar o tratamento visual injectado ao vivo por Charles-André Coderre.

No ano passado, os JIMH editaram Daqa’iq Tudaiq, um álbum que parece reunir em si duas personalidades distintas. A primeira, referente aos quatro primeiros temas, mais orgânica e orquestral, transmitindo a ideia de ter sido gravada por vários artistas e reunindo assim uma sonoridade mais aberta, expansiva. A segunda, referente às quatro faixas que se seguem, mais electrónica e individual, espelho de uma abordagem conjugada no singular e, por isso, virada para o interior.

Na origem desta interessante dicotomia está um antigo sonho de Moumneh, o de reinterpretar a canção tradicional egípcia “Ya Garat Al Wadi” com ajuda de uma orquestra. O tema foi gravado ao vivo em Beirute, em 2017, e conta com um ensemble de 15 músicos, divididos entre burzuq, contrabaixo, viola, violino, violoncelo, darbuka, santur, guitarra acústica e voz, entre outros, sendo a letra original da autoria de Ahmad Shwaki (Moumneh fez algumas alterações para adaptá-la à versão mais moderna e ao contexto sociopolítico) e os arranjos da responsabilidade de Sam Shalabi. Misturada e masterizada nos estúdios Hotel2Tango e na Grey Market, respectivamente, a canção é rebaptizada como “Wa Ta’atalat Loughat Al Kalam” e integra a primeira metade de Daqa’iq Tudaiq, onde se divide em quatro envolventes partes.

Os restantes temas traduzem-se e numa caminhada solitária pelos trajectos anteriormente percorridos pelo mentor do projecto: fusão entre orgânica e electrónica, vozes que se embebem em sons processados, o cruzamento entre o passado e o presente, o limbo entre o tradicional e o moderno, a destruição e a reconstrução – como serve de exemplo a estranha (que se entranha) canção “Thahab, Mish Roujou’, Thahab”, qualquer coisa como “partir para não regressar, partir”.

Moumneh deixou Beirute enquanto novo, em busca de uma vida melhor, longe dos conflitos que assolavam o país. Sempre que pode, regressa à sua terra Natal para matar saudades da família. Todavia, esse regresso é também feito diariamente, à boleia dos JIMH. Radwan partiu rumo a Ocidente para estar constantemente a regressar e a unir duas culturas que merecem viver menos vezes afastadas. Tomemos-lhe o exemplo.