Quando o talento se junta à vontade de não ficar preso num único estilo

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Moses Boyd, Nubya Garcia, Kojey Radical, Tiana Major9 e Ruby Francis. Estes são apenas alguns dos nomes que figuram na extensa e luxuosa lista de créditos de Xover, o álbum de estreia dos Blue Lab Beats, colectivo constituído por NK-OK e Mr DM, dois nomes que estão a deixar sérias marcas na nova cena jazz britânica, movimento onde se destacam também artistas como Alfa Mist, Ezra Collective, Kamaal Williams e Sons of Kemet, citando apenas alguns exemplos. Xover, editado em março do ano passado, é uma odisseia pelos meandros do jazz, hip hop e electrónica que tem coleccionado vários elogios por parte da crítica.

NK-OK e Mr DM, pseudónimos para os nomes Namali Kwaten e David Mrakpor, respectivamente, conheceram-se em 2013 na Weekend Arts College (Wac Arts), escola localizada em Belsize Park, Londres. Kwaten, com apenas 14 anos, fã de artistas como Kano e Wiley, programava beats num computador antigo que lhe fora oferecido pelo tio. Certo dia, enquanto mostrava as suas mais recentes produções aos colegas, foi convidado a assistir a um ensaio de uma banda que basicamente consistia num one-man show do multi-instrumentista Mrakpor (19 anos). Impressionado com o que vira, Kwaten convidou Mrakpor para criarem música juntos.

“Eu gostava da forma como ele fazia beats e ele gostava da forma como teu tocava bateria”, explicou Mrakpor numa conversa com o London Evening Standart publicada em julho de 2017, “eu não sabia muito do mundo digital, apesar de gostar do que J. Dilla fazia com os gira-discos, samplers e caixas de ritmo. Eu estava mais numa onda de música jazz e de artistas como Herbie Hancock, Oscar Peterson e Milt Jackson. Mas o NK-OK lançou-me o desafio de construirmos uma mão cheia de instrumentais para convidarmos alguns vocalistas para cantarem sobre eles, e foi o que fizemos”.

Antes de se lançarem ao muito aplaudido Xover, os Blue Lab Beats editaram dois EPs, Blue Skies (2016) e Freedom (2017), ambos merecedores da devida atenção e responsáveis pela escalada nas listas de jazz do Reino Unido, Europa e Japão. O crescendo de popularidade traduziu-se em milhões de visualizações nas plataformas on-line Jazz FM e Boiler Room assim como em concertos nos mais variados espaços, do conceituado Ronnie Scotts’s Jazz Club ao Love Supreme Festival. “Havia cerca de 50 pessoas [no festival] quando começámos o concerto”, recorda Kwaten na mesma entrevista, “passei o tempo todo da actuação de olhos fixos na minha caixa de ritmos, a carregar os samples, e, de repente, senti uma gigantesca agitação em meu redor; quando olhei, o público estava a delirar”.

Apesar de misturarem jazz, grime, hip hop e soul na sua fórmula química, os Blue Lab Beats preferem rotular o produto final como jazztronica. “É uma mistura de dois mundos”, explica NK-OK numa entrevista para a Clash Magazine publicada em junho do ano passado, “do meu lado electrónico, do hip hop e da programação de beats, e da harmonia e estrutura de Mr DM. O resultado desta soma pode ser chamado jazztronica. Não tem que ser apenas hip hop ou jazz mas sim qualquer tipo de música electrónica com influência jazz”, acrescenta.

Xover é um álbum que encontra fortes alicerces na variedade, musicalidade e, sobretudo, na componente orgânica, apostando assim num variado leque de músicos resgatados ao underground de jazz londrino e alguns nomes do universo hip hop, como Kojey Radical. “Eu acho que sempre houve espaço para este tipo de música mas é sobretudo isto que as pessoas precisam neste momento”, afirma NK-OK ainda na mesma conversa, “quer-se de música verdadeira ao invés da música que preenche actualmente o topo das tabelas de reprodução. Não quero com isto dizer que soe tudo ao mesmo, mas é algo demasiadamente repetitivo. As pessoas precisam de uma lufada de ar fresco, e isso está a tornar-se cada vez mais evidente”.

“Pineapple”, o single do disco, assenta precisamente nesse ideal orgânico, instrumental, não obstante toda vertente electrónica e dançável presente. Bateria espontânea garantida por Moses Boyd, secção de metais desenhada pelos Nérija, colectivo do qual Nubya Garcia faz parte, e um ritmo que em muito se aproxima do afrobeat. O próprio vídeo transmite a ideia de diversidade e expansão, seja ela meramente musical ou alargada à própria pluralidade cultural, exactamente o oposto da desunião que o Reino Unido do Brexit defende.

Xover, que se pronuncia “crossover”, foi parcialmente produzido nos estúdios dos Blue Lab Beats mas essencialmente gravado nos complexos da Real World, selo discográfico dedicado à world music fundado em 1989 por Peter Gabriel e pelos membros originais da WOMAD (World of Music, Arts and Dance), um conhecido festival internacional de músicas do mundo. “Não quisemos que saísse algo forçado e sem alma, por isso escolhemos um espaço que fosse agradável para o músico como para qualquer pessoa”, frisa Namali Kwaten, “foi isso que procurámos ao gravar no Real World, é possível sentir isso no álbum. Há uma música intitulada ‘Timeless’ que foi gravada apenas num take. Nesse dia estivemos a divertir-nos durante cerca de duas horas e foi o que saiu…”.

Kojey Radical e Tiana Major9 participam em “Sam Cooke & Marvin Gaye”, um perfeito cruzamento entre hip hop e soul assente em graves redondos, teclas profundas, tarola destacada, groove sublinhado – um organismo vivo que se entranha nos ouvidos e que evoca, logo no início, uma das frases mais populares da esfera hip hop, retirada do clássico “Shook Ones Pt II”. NK-OK explica, ainda na mesma entrevista para a Clash, como foi estar em estúdio com Kojey Radical, um importante nome do rap britânico. “O processo foi de loucos”, recorda. “Nós andávamos a construir beats da velha escola e ele andava a fazer trap mas sabíamos que por alguma razão iríamos encaixar em estúdio. Eu e o Mr Dm construímos o instrumental de ‘Sam Cooke & Marvin Gaye’ à sua frente em hora e meia. Foi algo muito natural, fluído. Ele escreveu a parte dele em cerca de 45 minutos e nem sequer nos mostrou o que tinha preparado para gravar”.

Tiana Major9, artista da zona oriental de londres, apaixonada por R&B e hip hop mas grande aficionada do jazz, é a voz que dá brilho a “Sam Cooke & Marvin Gaye”, imprimindo-lhe assim uma sonoridade soul. “Ele [Kojey] nem nos chegou a dizer quem ia trazer consigo”, recorda ainda NK-OK, “disse apenas que ia trazer alguém para cantar. Isto aconteceu cinco minutos antes da hora marcada para o início da sessão! Mal ouvi a magnífica voz da Tiana pensei imediatamente ‘isto é incrível!’. Ela partiu a casa toda, mesmo. Foi uma sessão muito divertida”.

Xover é um álbum que não procura uma textura apenas mas insiste na exploração de vários estilos, quase como se se tratasse de uma experiência em laboratório que visa percorrer a tabela periódica na sua totalidade e cruzar incessantemente todos os elementos existentes. Grande parte da inspiração veio de Song In The Key of Life, de Stevie Wonder, nome maior do espólio da tão consagrada e respeitada Motown. “[nesse álbum] Stevie muda de estilo quase a cada música”, refere. “Foi a partir daí que pensámos que ao invés de nos mantermos numa ideia apenas, podíamos trabalhar com diversas pessoas e com isso abandonarmos a nossa zona de conforto”.

Depois de ouvir Xover, uma coisa é certa: vale mesmo a pena investir neste tão rico e promissor laboratório.