Namvula, a cidadã do mundo que nunca virou costas às suas origens

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Para quem segue a página de Facebook do Ritmoterapia, Namvula não será certamente um nome assim tão desconhecido. A artista, que divide as suas origens entre a Escócia e a Zâmbia, já foi por diversas vezes abordada nas publicações curtas do blogue, quer no contexto do EP que partilha com Jinku, produtor da EA Wave, colectivo que terá também direito a artigo aprofundado nesta plataforma, quer na circunstância da edição do seu segundo álbum de longa-duração, o muito aplaudido Quiet Revolutions, tornado público em Novembro de 2017. Mergulhemos a fundo no seu trabalho.

Namvula Rennie é natural da Zâmbia. É descendente de mãe zambiana e pai escocês. Cresceu entre a Suíça, Quénia e Estados Unidos da América e vive actualmente dividida entre a Zâmbia e Londres, cidade com a qual se sente profundamente comprometida. Começou desde muito cedo a tocar e a compor música e tem noção que o seu percurso é fortemente influenciado por essa diversidade cultural. “Interagi com tantas coisas diferentes”, revelou a artista numa entrevista para o site Rhythm Passport em 2016, “e isso afectou sem dúvida a minha vida e a música que faço. Deixou-me mais consciente e sensível ao que vai acontecendo e mais interessada em como as coisas se interligam entre espaços”.

Além de misturar a tradição africana, a folk europeia e alguns ritmos latinos na sua música, Namvula canta em várias línguas, entre elas o inglês, francês e lenje, um dialecto articulado por uma pequena tribo na Zâmbia. “É muito interessante esta relação que eu tenho com as línguas. Cada língua tem a sua própria poesia e há músicas que pedem especificamente o uso de um ou outro idioma. Deixo-me muitas vezes inspirar pelo local onde estou no momento em que escrevo”, pode ler-se ainda na mesma entrevista, realizada numa altura em que a artista se encontrava a trabalhar em Quiet Revolutions. “Neste momento, procuro reatar com o inglês”, confessa, “no meu primeiro álbum [Shiwezwa] usei o lenje porque estava a explorar a minha identidade. Perguntava-me a mim própria se era legitimamente zambiana. Será que tinha o direito de me expressar nessa língua? O que significava para mim? Agora que me sinto muito mais confortável com o que sou quer musicalmente quer a nível pessoal, faço intenções de me reencontrar com a poesia inglesa”.

Shiwezwa, lançado em novembro de 2014, é um álbum que explora as suas raízes zambianas, uma verdadeira odisseia à sua terra natal polvilhada com pop, folk e jazz. Entre os 12 temas que compõem o álbum, que recebeu elogios rasgados do The Guardian (“uma das melhores revelações do ano”), TGA Magazine (“voz cativante e um inegável talento de composição”) e BBC Radio 3 (“uma mistura incomum e distintiva de diferentes mundos…”), é possível encontrar “Andorinha”, um belíssimo tema cantado em português que reitera o cariz quase poliglota da artista e compositora (dada a presença de uma significante comunidade angolana na Zâmbia, o português faz parte do currículo escolar do país, não é por isso de admirar o à vontade de Namvula, que admite ser fã de Mayra Andrade, em expressar-se na língua de Camões).

Localizada na Africa Austral e limitada pela República Democrática do Congo, Tanzânia, Malawi, Moçambique, Zimbabué, Namíbia e Angola, a Zâmbia foi durante muitos anos uma colónia britânica, tendo adquirido a sua independência a 24 de outubro de 1964. Afropop e rumba congolesa são alguns dos estilos musicais mais consumidos no país cuja capital é Lusaka, o que leva a que géneros mais ocidentais como o jazz e a música clássica não desempenhem um papel tão importante no quotidiano dos habitantes. “As pessoas gostam da minha música”, adianta Namvula, “mas na Zâmbia as pessoas não estão assim tão expostas a diferentes estilos musicais e isso faz com que seja mais complicado apreciar coisas novas. A indústria musical zambiana ajudou-me imenso, mas a minha música não é muito mainstream, muitas rádios nem saberiam o que fazer com ela”, admite.

Em novembro de 2017, Namvula editou Quiet Revolutions, um disco de afirmação e certezas, através do qual a artista cimenta as suas ideias e estabelece uma definida estrutura estética, recorrendo ao já habitual cruzamento de idiomas, com o francês e o inglês a juntarem-se novamente ao lenje, articulados entre lamentos, rezas e contos inspirados na tradição. Tudo isto mergulhado numa diversidade instrumental que vai da marimba à kora e do saxofone a belíssimos interlúdios de flauta, explorando em variados momentos o psicadelismo africano dos anos 70 sem nunca se afastar da identidade folk que outrora tão bem definiu a artista.

Numa entrevista mais recente, ainda para o site Rhythm Passaport, publicada em março do ano passado, Namvula explica o que mudou de Shiwezwa para Quiet Revolutions. “Entre os dois álbuns houve definitivamente um crescimento e a descoberta da minha identidade musical. O primeiro disco foi uma expressão de toda a minha bagagem e interesses. Havia canções muito folk e jazz. Foram capítulos da minha vida. Neste disco mais recente, a música é muito mais holística, coesa e coerente. Ao contrário do primeiro álbum que viu diferentes vozes a serem faladas, este representa muitas pessoas dentro de uma só”, esclarece.

Em Quiet Revolutions, Namvula, que em português pode ser traduzido para algo como “Rainha da Chuva”, nome inspirado na sua tetravó que viveu a sua vida ligada a rituais de chuva, explora a mulher em geral e a feminilidade em específico, sendo este um conceito que se estende da capa do disco ao próprio conteúdo das canções. “No processo de composição encontrei um enorme interesse nas histórias sobre mulheres, o que me deu imediatamente uma boa base de trabalho”, recorda, “Quiet Revolutions olha para os vários aspectos da feminilidade, espelha as histórias das mulheres que conheci e também transmite as várias experiências que eu própria vivi, como por exemplo a relação que tive com a minha avó. Tem a ver com diferentes experiências humanas e é uma celebração e reconhecimento de alguns acontecimentos que atravessamos enquanto mulheres”.

O álbum inicia-se com “Mbuya”, um poema escrito para a sua avó, que medita em torno da ideia do amor poder existir mesmo sem palavras, ainda que preso na mágoa de não haver uma partilha de experiências dadas as barreiras linguísticas (Namvula e a sua avó falavam línguas diferentes). “Nalile (Little Sorrow)”, a música que se segue, baseada num conto tradicional, versa sobre as mulheres que se viram obrigadas pelos seus maridos a matar todas as filhas recém nascidas, visto estes preferirem ser pais de meninos. “Night Song (Nikali Kuyenda)”, citando apenas mais um exemplo, é inspirada numa jovem que não teve outra alternativa senão prostituir-se para poder cuidar do seu filho, não obstante os riscos que sabia poder estar a tomar.

Quiet Revolutions é um disco intenso e carregado de sentimento, focado na mulher em geral mas ao mesmo tempo focado nas experiências pessoais da autora. O espelho de alguém que, apesar de ter percorrido o mundo de ponta a ponta, faz questão de salientar os laços que a ligam às suas origens, não esquecendo os amigos, conhecidos e familiares que a acompanharam na sua caminhada.

https://namvula.bandcamp.com/album/quiet-revolutions